
O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu por unanimidade, na tarde desta quarta-feira (25), condenar Domingos Inácio Brazão e João Francisco Inácio Brazão, conhecidos como irmãos Brazão, por serem os autores intelectuais do assassinato da vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco e de seu motorista, Anderson Gomes, em março de 2018. A sentença marca um desfecho para um dos casos mais emblemáticos da luta contra a impunidade no Brasil e ressalta os desafios do sistema de Justiça diante de crimes de natureza política e organizada.
O julgamento, conduzido pela Primeira Turma do STF, determinou penas severas aos condenados. Tanto Domingos quanto Chiquinho Brazão foram sentenciados a 76 anos e três meses de prisão pelos crimes de duplo homicídio, tentativa de homicídio e participação em organização criminosa armada. Outros três réus também receberam penas expressivas: o agente conhecido como Ronald Paulo Alves Pereira, ex-policial militar, foi condenado a 56 anos; o ex-chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro, Rivaldo Barbosa, a 18 anos por corrupção e obstrução de justiça; e Robson Calixto Fonseca, ex-assessor, a nove anos por integrar organização criminosa.
O caso, que ganhou repercussão internacional, foi acompanhado de perto por familiares da vereadora e por defensores de direitos humanos. Desde o crime em 2018, quando Marielle e Anderson foram mortos a tiros em uma emboscada na zona norte do Rio após participarem de um evento, o processo enfrentou dificuldades de investigação, que incluíram episódios de interferência e falta de avanço por anos.
Provas, motivação e trajetória do caso
As investigações apontaram que a motivação para o assassinato estava ligada à atuação de Marielle como crítica de grupos milicianos e a sua oposição às práticas ilegais de ocupação de terras e exploração imobiliária em áreas da zona oeste do Rio de Janeiro, onde os Brazão detinham influência. De acordo com a acusação, a vereadora representava um obstáculo político e institucional aos interesses desses grupos.
A decisão do STF se baseou, em grande parte, nos depoimentos recolhidos ao longo de anos de investigação, inclusive em delações premiadas que ligaram diretamente os mandantes ao planejamento do ataque. Entre os relatos utilizados no julgamento estavam os de Ronnie Lessa e Élcio Queiroz, dois ex-policiais condenados por executar o crime e que colaborararam com detalhes sobre a logística do assassinato.
Durante o julgamento, o relator do processo, Ministro Alexandre de Moraes, afirmou que as provas apresentadas pela Procuradoria-Geral da República (PGR) demonstravam, de forma consistente, a participação dos irmãos Brazão como ordenadores da execução, bem como dos demais réus em distintos papéis dentro da organização criminosa.

Repercussões e significado
A condenação unânime no STF representa um marco em um processo que durou quase oito anos e que, em muitos momentos, expôs fragilidades do sistema de investigação e de responsabilização de crimes políticos no Brasil. Para familiares e movimentos de direitos humanos, a decisão é vista como um passo importante para a afirmação de que ninguém está acima da lei, especialmente em casos que envolvem violência e intimidação contra ativistas e defensores de direitos civis.
Marielle Franco, ativista dos direitos das mulheres negras, LGBTQIA+ e das comunidades periféricas do Rio de Janeiro, tornou-se símbolo de resistência contra a violência e a injustiça. Sua morte teve repercussão nacional e internacional, gerando protestos, mobilizações e debates sobre violência política, segurança pública e relações entre milícias e poder político.
Rivaldo Barbosa, condenado por corrupção e obstrução de justiça, e Robson Calixto Fonseca, também condenado no processo, foram julgados por atos que teriam dificultado a investigação ou integrado a estrutura organizada que planejou o crime.
A condenação dos irmãos Brazão e dos demais réus ocorre em meio a um contexto judicial que amplia a responsabilização de atores políticos e de grupos criminosos por crimes de grande repercussão. Analistas apontam que a decisão pode impulsionar novas investigações e fortalecer mecanismos de proteção a líderes sociais e representantes eleitos.
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